PÁSSARO DA ILHA
"Fragmentos introspectivos para ver e mostrar o nunca visto, a mídia alternativa, o velho e o novo, o feio e o bonito, registro de tempo... opinião registrada de quem tem voz ativa e diz o que pensa, e, para insanamente, correr o risco de ser lesado em meus direitos autorais"
19 Dezembro, 2011
Privataria Tucana, o filme
A Privataria Tucana - O Filme from Cloaca News on Vimeo.
Sob a brilhante direção de Cloaca News, ator declara: “Agradeço ao Merval pelo apoio”
23 Novembro, 2011
Fernando Morais dá uma surra em Leandro Narloch
Nem as batatas cubanas ficaram de fora da mais animada e polêmica entre as mesas da 7ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que reuniu, em Olinda, os jornalistas Fernando Morais, Leandro Narloch e Samarone Lima. O tema proposto era América Latina para o bem e para o mal e Cuba dominou boa parte da conversa. A segunda parte do debate ficou concentrada nos dois livros de Narloch, o Guia Politicamente Incorreto do Brasil (hoje, o quinto mais vendido no Brasil) e o Guia Politicamente Incorreto da América Latina (Leya).
Quem deu a largada foi o moderador Vandek Santiago. Ele questionou o jornalista sobre as fontes usadas na produção do livro, entre as quais estavam "as más línguas" em capítulo sobre o relacionamento de Perón, na Argentina, com jovens meninas.
Morais se juntou ao debate quando Narloch disse que "vários" cubanos desertaram durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. "Foram dois", respondeu. Em outro momento, Narloch afirmou que as conquistas nas áreas econômica e de saúde não valeram a pena para Cuba, o que mereceu o deboche de Morais. "Essa fala me lembrou Nelson Rodrigues, que era um grande dramaturgo e um péssimo político, e que disse que preferia a liberdade ao pão. Pergunte a uma mãe que está enterrando o filho de cinco anos por desnutrição o que ela pensa disso", disse Morais, que tinha acabado de citar dados da Unesco que mostram que Cuba tem o menor índice de mortalidade infantil entre os países concentrados do sul dos Estados Unidos à Patagônia.
Mais um pouco de conversa sobre liberdade e Cuba e a atenção voltou para Narloch. Fernando Morais, que não leu o livro mas acompanhou algumas entrevistas do autor, mencionou o caráter marqueteiro das obras. O autor chegou a comentar em uma dessas entrevistas que tinha começado a coleção, que terá um novo volume sobre a história do mundo, para ganhar algum dinheiro. "Estou em pânico. Passei a faculdade lendo Fernando Morais e agora estamos quebrando o pau".
"Leandro Narloch se reconhece como uma pessoa de direita. Em um país onde Paulo Maluf se diz de centro-esquerda, alguém de 30 e poucos anos se assumir de direita é de uma honestidade política", comentou. "Mas seus livros deveriam ter uma errata dizendo que eles se chamam Guias Politicamente Corretos porque estão remando a favor da maré e absolutamente a favor do vento que sopra na imprensa, especialmente na Revista Veja", completou.
Samarone Lima, que trazia um dos exemplares cheios "post-it", disse que encontrou uma série de problemas no livro, mas que o principal dizia respeito ao capítulo dedicado ao general Augusto Pinochet. "É de uma inconsistência dolorosa. Nós, jornalistas, trabalhamos com fontes. Você não pode escrever sobre Pinochet usando como fonte um livro lançado pelo governo golpista", disse Lima, que encontrou 12 referências ao tal livro oficial no capítulo.
Enquanto Lima procurava outra passagem, Narloch, já sem graça com a repercussão que seu trabalho tinha ganhado naquele painel, brincou: "Acabou, não dá mais tempo." Mas deu. Ainda desconfortável, perdeu o fio da meada e foi vaiado quando, mais calmo, também citou Nelson Rodrigues: "Quem não é socialista com 20 anos não tem coração. Quem é com 40 não tem cérebro."
Foi então a vez dele contestar uma informação publicada por Morais sobre o episódio das larvas jogadas pela governo americano nas plantações de batatas em Cuba. "Use um pouco do dinheiro que você ganha com direitos autorais e vá até os Estados Unidos checar isso. Nós não vamos ficar aqui brigando pelas batatas cubanas", finalizou Morais.
Abaixo, confira o vídeo com trechos do debate:
Fonte: Pragmatismo Político
28 Outubro, 2011
A criatividade maconhística me fascina
copicolado do facebook de meu amigo, "o palhaço" Paulo Dép.
Ops: Te fez rir??? Isso sempre faz rir...
26 Outubro, 2011
A civilização avança...
... e traz ao homens comuns,
aqueles que riem e choram de alegria e tristeza,
aqueles que comem e bebem e amam e brindam
os dias claros e os dias escuros,
aqueles que se enfartam de preocupações e anseios,
aqueles que respiram o ar da indignação e
sentem na pele o comichão da liberdade e da justiça,
a trágica sensação de que a esperança de um mundo melhor
será sempre e tão somente uma esperança,
uma mera utopia,
um sonho,
um pesadelo
que não termina.
20 Outubro, 2011
Para Morvan
"A razão por que a despedida nos dói tanto é que nossas almas estão ligadas. Talvez sempre tenham sido e sempre serão. Talvez nós tenhamos vivido mil vidas antes desta e em cada uma delas nós nos encontramos. E talvez a cada vez tenhamos sido forçados a nos separar pelos mesmos motivos. Isso significa que este adeus é ao mesmo tempo um adeus pelos últimos dez mil anos e um prelúdio do que virá." Nicholas Sparks
Assim deixo aqui ao mesmo tempo meu adeus, meu até mais, e meu obrigado por tudo, querido amigo MORVAN.
Assim deixo aqui ao mesmo tempo meu adeus, meu até mais, e meu obrigado por tudo, querido amigo MORVAN.
22 Setembro, 2011
Marcha no Facebook
Um internauta bem intencionado reclamou:
O que aconteceu com os indignados? Porque a Marcha contra a corrupção não saiu do lugar? Você estava fazendo alguma coisa mais importante? Amanhã estarás por aqui a reclamar dos políticos? LAMENTÁVEL!!!
Não me furtei a fazer um comentário, com toda a simpatia de que fui capaz:
Eu não fui, pelos motivos a seguir: 1. não sou milico, para participar de marcha; 2. não sou ingênuo, para entrar numa onda "contra a corrupção" patrocinada por grandes corruptos; 3. não sou massa de manobra, para desconhecer que o combate, na verdade, é contra o governo da Dilma; 4. não sou janista, para empunhar vassoura; 5. não sou reacionário, para abraçar esse udenismo fora de época; 6. não sendo nada disso, também não sou otário.
O que aconteceu com os indignados? Porque a Marcha contra a corrupção não saiu do lugar? Você estava fazendo alguma coisa mais importante? Amanhã estarás por aqui a reclamar dos políticos? LAMENTÁVEL!!!
Não me furtei a fazer um comentário, com toda a simpatia de que fui capaz:
Eu não fui, pelos motivos a seguir: 1. não sou milico, para participar de marcha; 2. não sou ingênuo, para entrar numa onda "contra a corrupção" patrocinada por grandes corruptos; 3. não sou massa de manobra, para desconhecer que o combate, na verdade, é contra o governo da Dilma; 4. não sou janista, para empunhar vassoura; 5. não sou reacionário, para abraçar esse udenismo fora de época; 6. não sendo nada disso, também não sou otário.
14 Setembro, 2011
Marx e Darwin
Marx leu "A Origem das Espécies” em 1860, quase um ano depois da obra tornar-se o primeiro best-seller da literatura científica da idade moderna. Encantado com a tese do evolucionismo escreve a Engels que o livro continha ''a base de história natural para nossa visão'' – a teoria do materialismo dialético –, que tinha desmontado a teologia, e que fora escrito à ''maneira inglesa crua de apresentação''. Em carta a Lassalle, comenta que ''o livro de Darwin é muito importante e me serve de base, na ciência natural, para a luta de classes na história''. Meses depois, em nova carta a Engels, registra uma crítica dessa obra de Darwin, tendo como pressuposto a sociedade vitoriana: ''É notável como Darwin reconhece entre animais e plantas sua sociedade inglesa com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, 'invenções' e a 'luta pela existência' malthusiana. É o 'bellum omnium contra ommnes' (guerra de todos contra todos) de Hobbes, e lembra a Fenomenologia de Hegel onde a sociedade civil é descrita como um 'reino animal e espiritual', enquanto em Darwin o reino animal figura como sociedade civil''.
Em 1873, envia ao cientista inglês um exemplar de “O Capital”. E Darwin agradece o envio: ''Agradeço-lhe por ter-me honrado com a remessa de sua grande obra sobre o capital, e, de todo o coração, gostaria de ser mais digno de recebê-la, tendo uma compreensão melhor do tema profundo e importante da economia política. Conquanto nossos estudos tenham sido muito diferentes, creio que ambos desejamos sinceramente a ampliação do saber e, a longo prazo, é certo que isso contribuirá para a felicidade da humanidade''.
Diante da sepultura de Marx, Engels faz a seguinte afirmativa : "Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana"
Em 1873, envia ao cientista inglês um exemplar de “O Capital”. E Darwin agradece o envio: ''Agradeço-lhe por ter-me honrado com a remessa de sua grande obra sobre o capital, e, de todo o coração, gostaria de ser mais digno de recebê-la, tendo uma compreensão melhor do tema profundo e importante da economia política. Conquanto nossos estudos tenham sido muito diferentes, creio que ambos desejamos sinceramente a ampliação do saber e, a longo prazo, é certo que isso contribuirá para a felicidade da humanidade''.
Diante da sepultura de Marx, Engels faz a seguinte afirmativa : "Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana"
13 Setembro, 2011
22 Agosto, 2011
Corrupção só dói quando não é a minha???
Anda o PIG – Partido as Imprensa Golpista - alardeando que o PT está insatisfeito com a faxina que Dilma estaria promovendo na corrupção encastelada no Governo há décadas.
Não posso crer nisto.
Não creio que companheiros de anos de luta estejam calados, silenciosos, e desagradados porque a faxina pode de alguma forma prejudicar a imagem do Lula, já que boa parte do que está sendo extirpado vem de seus conchavos anteriores.
Isto faz parte das alianças.
Não quer dizer que Lula foi, ou é corrupto. É preciso denunciar esta tentativa da Direita de enlamear o maior líder trabalhador que este País já teve e tem.
Por isso não posso crer que se tenha dois discursos e posições sobre a corrupção: um quando o combate à ela não me prejudica, e outro quando acho que me prejudica.
A política exige jogo de cintura, mas a honestidade é questão de princípio. Não se negocia.
Por isso não creio que os companheiros petistas que andam tão calados num momento tão importante para sanear o País , o estejam por causa de interesses políticos.
Acho mesmo que é pura intriga do PIG e dos tucanos que querem se aproveitar do momento para enfraquecer o Lula e o PT.
O País vive momentos inauditos: as eleições municipais que se aproximam; a faxina contra a corrupção; a faxina contra miséria; a denuncia de corrupção na CBF; a articulação da Direita com Jobim; a denúncia de Ricardo Teixeira contra a Globo; a crise da economia mundial; a queda da IBOVESPA; a PL 122; os Congressos do PT e do PPS; a aproximação de FHC com Dilma...é muita coisa, muita coisa. Não dá pra tirar férias, ou colocar um anuncio na porta do tuitter : fui almoçar.
Eu, que não sou petista, afirmo que a luta contra a corrupção pertence a todos nós, independente de partidos ou eleições, e terá a hegemonia do processo quem sair na frente combatendo corruptos e corruptores.
É assim que se ganha a hegemonia numa luta, todos sabem disto.
Não posso crer nisto.
Não creio que companheiros de anos de luta estejam calados, silenciosos, e desagradados porque a faxina pode de alguma forma prejudicar a imagem do Lula, já que boa parte do que está sendo extirpado vem de seus conchavos anteriores.
Isto faz parte das alianças.
Não quer dizer que Lula foi, ou é corrupto. É preciso denunciar esta tentativa da Direita de enlamear o maior líder trabalhador que este País já teve e tem.
Por isso não posso crer que se tenha dois discursos e posições sobre a corrupção: um quando o combate à ela não me prejudica, e outro quando acho que me prejudica.
A política exige jogo de cintura, mas a honestidade é questão de princípio. Não se negocia.
Por isso não creio que os companheiros petistas que andam tão calados num momento tão importante para sanear o País , o estejam por causa de interesses políticos.
Acho mesmo que é pura intriga do PIG e dos tucanos que querem se aproveitar do momento para enfraquecer o Lula e o PT.
O País vive momentos inauditos: as eleições municipais que se aproximam; a faxina contra a corrupção; a faxina contra miséria; a denuncia de corrupção na CBF; a articulação da Direita com Jobim; a denúncia de Ricardo Teixeira contra a Globo; a crise da economia mundial; a queda da IBOVESPA; a PL 122; os Congressos do PT e do PPS; a aproximação de FHC com Dilma...é muita coisa, muita coisa. Não dá pra tirar férias, ou colocar um anuncio na porta do tuitter : fui almoçar.
Eu, que não sou petista, afirmo que a luta contra a corrupção pertence a todos nós, independente de partidos ou eleições, e terá a hegemonia do processo quem sair na frente combatendo corruptos e corruptores.
É assim que se ganha a hegemonia numa luta, todos sabem disto.
21 Agosto, 2011
O Óbvio Uluante
No centenário de Nelson Rodrigues Mano Menezes comemora o “óbvio ululante” e diz que Brasil está abaixo das melhores seleções. Kikiakia...
19 Agosto, 2011
O inverno de nossa insatisfação
Os feios e a Europa
Marcelo Carneiro da Cunha
Terra Magazine
"Now is the winter of our discontent", começa Ricardo III, em mais uma frase criada por Shakespeare para sacudir os nossos ossos. Com ela, o corcunda que deseja ser rei começa sua trajetória de maldades, já que ele descobriu que, se não é belo, inteligente, bem-amado, ele pode muito bem arrumar o que deseja sendo o vilão mais vilão de todos os tempos. Não foi o primeiro, não será o último.
Acontece que, em diferentes momentos nesse mundo vasto mundo, os feios descobrem que os mais belos não os incluem nos seus planos, talvez por preferirem outros igualmente belos ou mais bem cheirosos. Aos mais feios resta a escolha de irem para um canto, agradecendo aos deuses pela invenção da Caras e da chance de ao menos olhar os bonitos enquanto eles enxugam Chandon nos seus castelos, ou, partir para cima e mostrar que a feiúra tem lá o seu charme, ainda mais quando armada de um bom e velho porrete.
Na França medieval, de tempos em tempos acontecia uma jacquerie, uma revolução dos "jacques", os pobres a sofridos camponeses que produziam toda a riqueza que havia, e da qual viam tão pouco. Cuidar do que não comiam era a sina dos jacques, que por vezes cansavam dessa ordem ordenada por Deus e, descobrindo a força dos seus números, acabavam com os nobres e clérigos mais próximos e se esbaldavam por um tempo com o pão e o vinho dos castelos tomados. Na sequência inevitável, o rei reunia seus soldados, ia até os camponeses rebelados, ouvia seus choros justos, prometia mundos e fundos, e enforcava a todos, assim que baixavam as armas.
Até a Revolução Francesa, esse foi o destino de todas as jacqueries, que somente tiveram o script mudado porque em 1789 havia um cansaço com a idéia da divindade dos reis, e uma burguesia disposta a dizer aos jacques o que fazer com o machado.
A lição que a História dá é que rebeldia sem causa, ou sem clareza dos meios com os quais atingir os fins; são ondas que batem na areia e se desfazem, deixando apenas espuma pelo caminho. E nesse agosto, enquanto sírios morrem na grande luta contra uma ditadura insuportável, os pobres das cidades européias batem cabeça nessa jacquerie pós-industrial que estamos assistindo.
A Europa trouxe muita gente da periferia para habitar a sua periferia. São imigrantes das ex-colônias, no caso de Inglaterra e França, são imigrantes turcos que vieram tocar as fábricas alemãs, no boom industrial do pós-guerra, e que descobriram que morar na Europa rica era muito melhor do que morar nos seus países de origem. Mas descobriram também que não seriam convidados a participar da festa, basicamente, por serem feios. A religião é um problema, os hábitos de vestuário, sua mania de se protegerem em guetos, simplesmente por não serem aceitos fora deles, incompreensível. A Europa se descobriu cheia de pessoas que ela não entende e para as quais não tem um lugar definido. Assim, como tudo que não tem lugar claro aqui na minha luxuosa ex-laje, eles terminam no quartinho dos fundos, empilhados temporariamente, o que quer dizer, acho, pra sempre.
Em um país das Américas, essas pessoas seriam absorvidas e virariam cidadãs, mesmo que pobres. Na branca e européia Europa essa alternativa simplesmente não está lá. Não existe a sociedade multirracial na qual todos podem ser parte igual. Ao se olharem no espelho eles são o outro, sempre. Eu vi jovens de origem turca em Berlim rindo de si mesmos com a tristeza irônica que vocês podem imaginar, dizendo para mim que eram "terroristas. Os pobres da periferia européia não são apenas pobres, mas párias. E se a Europa deixou de ter um sonho de futuro para os seus meninos brancos e europeus - um em cada dois jovens é um desempregado na Espanha -, imaginem para esses aí, o que sobra?
O Brasil vive o seu sonho, e não pensa muito sobre como é viver sem um. Nós temos que transpor o São Francisco, parar o desastre na Amazônia, extrair petróleo do pré-sal; produzir alimento pro mundo, ensinar motoristas a se comportar diante de uma faixa de segurança; temos que integrar milhões de brasileiros a uma vida mais normal, reduzir nosso ridículo analfabetismo e fazer uma lavagem cerebral nos Malafaia e Bolsonaro que nos afligem. Temos sonhos e trabalho para um século, pelo menos, e isso vai nos manter ocupados e longe da depressão social que os europeus vivem.
Talvez a gente até possa, na nossa capacidade tupinambá de especialistas em antropofagia, receber aqui todos esses Ricardos III que a Europa diz não querer. Quem sabe aqui eles se alimentam do nosso sonho e nos ajudam com sua energia a irmos ainda mais longe, agora com o cheiro de curry no ar?
Agosto é o mês das inquietudes, dizem. O desejo dos europeus de sacrificar sonhos por um conforto inalcançável deu nisso. Que a gente permaneça na nossa inquietude e no nosso modelo de descontentamento. Que alguém descubra como fazer o real parar de querer ser dólar. Que o Mano Menezes descubra o que fazer com o nosso talento desmiolado, ou saia de cena. Que a Dilma siga moendo a pancada os que achavam que estariam lá para sempre e estaremos bem, é o que eu acho, quando setembro vier.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.
Marcelo Carneiro da Cunha
Terra Magazine
"Now is the winter of our discontent", começa Ricardo III, em mais uma frase criada por Shakespeare para sacudir os nossos ossos. Com ela, o corcunda que deseja ser rei começa sua trajetória de maldades, já que ele descobriu que, se não é belo, inteligente, bem-amado, ele pode muito bem arrumar o que deseja sendo o vilão mais vilão de todos os tempos. Não foi o primeiro, não será o último.
Acontece que, em diferentes momentos nesse mundo vasto mundo, os feios descobrem que os mais belos não os incluem nos seus planos, talvez por preferirem outros igualmente belos ou mais bem cheirosos. Aos mais feios resta a escolha de irem para um canto, agradecendo aos deuses pela invenção da Caras e da chance de ao menos olhar os bonitos enquanto eles enxugam Chandon nos seus castelos, ou, partir para cima e mostrar que a feiúra tem lá o seu charme, ainda mais quando armada de um bom e velho porrete.
Na França medieval, de tempos em tempos acontecia uma jacquerie, uma revolução dos "jacques", os pobres a sofridos camponeses que produziam toda a riqueza que havia, e da qual viam tão pouco. Cuidar do que não comiam era a sina dos jacques, que por vezes cansavam dessa ordem ordenada por Deus e, descobrindo a força dos seus números, acabavam com os nobres e clérigos mais próximos e se esbaldavam por um tempo com o pão e o vinho dos castelos tomados. Na sequência inevitável, o rei reunia seus soldados, ia até os camponeses rebelados, ouvia seus choros justos, prometia mundos e fundos, e enforcava a todos, assim que baixavam as armas.
Até a Revolução Francesa, esse foi o destino de todas as jacqueries, que somente tiveram o script mudado porque em 1789 havia um cansaço com a idéia da divindade dos reis, e uma burguesia disposta a dizer aos jacques o que fazer com o machado.
A lição que a História dá é que rebeldia sem causa, ou sem clareza dos meios com os quais atingir os fins; são ondas que batem na areia e se desfazem, deixando apenas espuma pelo caminho. E nesse agosto, enquanto sírios morrem na grande luta contra uma ditadura insuportável, os pobres das cidades européias batem cabeça nessa jacquerie pós-industrial que estamos assistindo.
A Europa trouxe muita gente da periferia para habitar a sua periferia. São imigrantes das ex-colônias, no caso de Inglaterra e França, são imigrantes turcos que vieram tocar as fábricas alemãs, no boom industrial do pós-guerra, e que descobriram que morar na Europa rica era muito melhor do que morar nos seus países de origem. Mas descobriram também que não seriam convidados a participar da festa, basicamente, por serem feios. A religião é um problema, os hábitos de vestuário, sua mania de se protegerem em guetos, simplesmente por não serem aceitos fora deles, incompreensível. A Europa se descobriu cheia de pessoas que ela não entende e para as quais não tem um lugar definido. Assim, como tudo que não tem lugar claro aqui na minha luxuosa ex-laje, eles terminam no quartinho dos fundos, empilhados temporariamente, o que quer dizer, acho, pra sempre.
Em um país das Américas, essas pessoas seriam absorvidas e virariam cidadãs, mesmo que pobres. Na branca e européia Europa essa alternativa simplesmente não está lá. Não existe a sociedade multirracial na qual todos podem ser parte igual. Ao se olharem no espelho eles são o outro, sempre. Eu vi jovens de origem turca em Berlim rindo de si mesmos com a tristeza irônica que vocês podem imaginar, dizendo para mim que eram "terroristas. Os pobres da periferia européia não são apenas pobres, mas párias. E se a Europa deixou de ter um sonho de futuro para os seus meninos brancos e europeus - um em cada dois jovens é um desempregado na Espanha -, imaginem para esses aí, o que sobra?
O Brasil vive o seu sonho, e não pensa muito sobre como é viver sem um. Nós temos que transpor o São Francisco, parar o desastre na Amazônia, extrair petróleo do pré-sal; produzir alimento pro mundo, ensinar motoristas a se comportar diante de uma faixa de segurança; temos que integrar milhões de brasileiros a uma vida mais normal, reduzir nosso ridículo analfabetismo e fazer uma lavagem cerebral nos Malafaia e Bolsonaro que nos afligem. Temos sonhos e trabalho para um século, pelo menos, e isso vai nos manter ocupados e longe da depressão social que os europeus vivem.
Talvez a gente até possa, na nossa capacidade tupinambá de especialistas em antropofagia, receber aqui todos esses Ricardos III que a Europa diz não querer. Quem sabe aqui eles se alimentam do nosso sonho e nos ajudam com sua energia a irmos ainda mais longe, agora com o cheiro de curry no ar?
Agosto é o mês das inquietudes, dizem. O desejo dos europeus de sacrificar sonhos por um conforto inalcançável deu nisso. Que a gente permaneça na nossa inquietude e no nosso modelo de descontentamento. Que alguém descubra como fazer o real parar de querer ser dólar. Que o Mano Menezes descubra o que fazer com o nosso talento desmiolado, ou saia de cena. Que a Dilma siga moendo a pancada os que achavam que estariam lá para sempre e estaremos bem, é o que eu acho, quando setembro vier.
Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.
18 Agosto, 2011
Fica Teixeira e conte tudo o que você sabe!
Diante da notícia de que o capo da CBF, Ricardo Teixeira, começa a chantagear seus parceiros da Rede Globo de Televisão, não me resta outra saída a não ser dizer: Fica Teixeira e conte tudo o que você sabe! Se está no inferno, abraça o capeta!
28 Julho, 2011
Madame existe
Este samba da autoria de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, de 1956, incorporado ao repertório de João Gilberto com sotaque de bossa nova, não é só mais uma canção valorizando o samba e dando de ombros para aqueles que costumam desdenhar do gênero. A referida Madame que afirma ser o "samba música barata, sem nenhum valor" realmente existiu. Magdala da Gama de Oliveira, tornou-se conhecida como crítica de rádio, escrevendo numa coluna do jornal Diário de Notícias (durante três décadas foi um dos mais importantes jornais do país. Lidera a circulação no Rio de janeiro e ganha a fama de um veículo de opinião livre e independente, atingindo um alto padrão de credibilidade) e assinando com o pseudônimo de Mag. Mag, conseguiu entrar para a história da MPB, pelos ataques deferidos contra o samba. De acordo com os opositores de Madame a intenção da autora era diminuir o samba, desclassificá-lo como música brasileira.
Mas se Mag tinha seu espaço na imprensa para condenar a canção popular e seus compositores, do outro lado havia aqueles que gastavam tempo e pena para fazer a defesa do réu. Fernando Lobo, compositor e jornalista, não suportando o pedantismo de Mag, escreve em 1944, uma artigo na revista O Cruzeiro, utilizando-se inteligentemente do mesmo repertório da inimiga do samba para desautorizar seus argumentos. Assim, sob o título Sugestão a Madame, Lobo, responde às ofensas de Magdala : "O dia de hoje está ai, bem diverso e distante da infância de madame. Como está o samba? Ah! Nos EUA rolando dentro das películas e passando nos microfones civilizados do mundo inteiro. Não são os dentes estragados dos homens do regional, nem a ausência dos smockins, nem o sono do tocador de cavaquinho ou os enfeites baratos das cabrochas, que destroem o samba. Todos esses fatos são derivados de uma situação social e material diversa de que madame conhece e desfruta. O samba não tem culpa. Mozart que tinha maus dentes e não pagava as dívidas, Chopin, a que George Sand muito ajudou. Schubert e muitos outros, foram na época, os mesmos miseráveis que são os nossos tocadores populares. (...). Vamos ver até onde chega a ignorância humana! Portinari já pintou o samba, já refletiu nas suas telas a expressão de nossa música. Villa Lobos aí está. Toda a grandeza de sua obra é apoiada nos ritmos populares do Brasil. E os que vêm de fora, da terra de Chopin, ou de Mozart, de Ravel ou de Stravinsky, ficam sempre deslumbrados ante a beleza positiva e grandeza do nosso ritmo! Por que matar o samba, ó impiedosa Madame? Sendo ele alegria da gente humilde é também a alegria dos da sua classe e ao mesmo tempo o alicerce de uma música definitiva que se esboça no cenário musical brasileiro. (...). "
Nos anos 40 Carmen Miranda fazia sucesso nos Estados Unidos - país, visto por muitos brasileiros, como o exemplo de nação moderna e civilizada. Estrelando no cinema norte-americano, Carmen apresentava na terra do Tio Sam e em outros países da Europa o samba como o ritmo brasileiro. Se os yankees haviam aprovado o gênero, como Madame, tão aculturada, podia reprová-lo? Continuando a desconstruir os argumentos de Mag que insistia em desprestigiar o samba por ser música oriunda das camadas populares, Lobo lembra da pobreza dos compositores eruditos e da valorização da canção popular por artistas brasileiros respeitados pela elite como o compositor Vila Lobos e o pintor Candido Portinari.
Mas a contenda não para aí. Em 1946 foi a vez de Afoché indignar-se com a arrogância elitista de Magdala e mandar-lhe um recado: "... Temos lido críticas severas, principalmente de inimigos deliberados e intransigentes da canção popular como essa sofisticada e venerável matrona que se assina Mag e que não compreende outra música, outra emoção, outro sentimento que não seja o RAFINÉE. Na mesma época que vemos Villa Lobos Stokowsky, Mignone e outros musicistas de classe exaltarem a música fonte, que é esta nascida da própria alma ingênua da rua, do coração do povo, uma professora fracassada e medíocre e de nível cultural abaixo da linha aceitável, investe diariamente, com a bateria de sua intransigência, contra tudo que é música popular, que vise a alegria da massa ou encontre o caminho de seu agrado. (...). Todos os compositores brasileiros, a seu ver, são analfabetos e ignorantes. É impossível para Mag, que um lustrador de móveis como Heitor dos Prazeres cante com ingenuidade e sincera emoção a canção de seu amor. E no entanto a National Gallery, de Londres expôs quadros desse mesmo lustrador de móveis, Heitor dos Prazeres. Crítica é livre, mas o leitor dessas críticas exige, antes de tudo, honestidade. E é permitido voltar-se contra os pareceres mal dados, se eles revelam vícios de origem, suspeição má fé e intenção de ser do contra de qualquer jeito. Se a maneira de Mag analisar as canções populares variasse à medida que fosse achando exceções, ainda era possível acreditar em um louvado propósito. Mas nada disso acontece. Tudo é ruim. Nada presta...."
O jornalista não polpa palavras, pretendendo desacreditar Magdala frente ao leitor a acusa de incompetente para criticar o samba, Para Afoché, o ponto de partida de Mag era o preconceito, assim tendo só ouvidos para a música erudita, o rafinée, não era capaz de discernir a boa da má música popular fazendo tábua rasa de tudo.
Mas não bastasse os revides dos jornalista nos anos 40, às posições de Magdala assumidas publicamente em relação ao samba, fariam render ainda, dez anos depois desse último artigo assinado por Afoché, a canção marota da autoria de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida, Pra que discutir com Madame. Aliás essa é uma boa pergunta, já que Mag era considerada limitada intelectualmente, equivocada e pretensiosa ao querer julgar o que deveria e o que não deveria ser a música brasileira, por que mereceu tanto destaque, dispondo estes jornalistas a combate-la?
O fato é que essa contenda, embora fosse travada com Mag, tem início lá nos anos 30, quando o rádio, tateando em busca de uma programação mais ao gosto do ouvinte, passou a difundir a canção popular carioca - de acordo com os registros da imprensa da época - como a canção popular nacional. No mesmo período, investindo no sucesso que o samba conquistava no rádio, o cinema nacional produziu os musicais carnavalescos, contribuindo para tornar o gênero conhecido nacionalmente.
A luta das representações em torno da constituição de uma identidade nacional marcaram sobremaneira o governo de Getúlio Vargas que pretendia promover a unidade a fim de assegurar o seu poder, eliminando as possíveis tensões entre os diferentes segmentos sociais. Dessa maneira, ao mesmo tempo que encontravam-se sediados no Ministério da Educação e Saúde compositores eruditos como Villa Lobos, Vargas não deixava de reconhecer os sambas e as marchinhas, como representante legítimos da música brasileira.
Todavia, se essa era a postura de um governante populista, que buscava harmonizar a sociedade ao promover um simbólico comum, capaz de integrar aqueles setores sociais, até então marginalizados de cidadania, no cotidiano as rixas continuavam. Aliás em torno das mesmas representações que pretendiam promover a unidade, como por exemplo a música.
O samba, pela sua origem negra e popular sempre foi hostilizado por aqueles setores mais conservadores que se viam identificados com a cultura européia. Para estes segmentos, aceitar o samba como música nacional, significava internamente "misturar-se ao povo" que tanto rejeitavam e externamente admitir um Brasil atrasado, primitivo inferior às nações desenvolvidas. Por isso pessoas como Magdala tentavam a todo custo rechaçar o samba como identidade nacional. Esta é, portanto, uma longa história que não termina nos anos 30, ou nos 40 e tão pouco nos 50. Apesar de nos anos 60 a bossa nova aproximar os mais elitistas da canção popular, a letra da composição de Haroldo Barbosa não perde a sua contemporâneidade, pois as fronteiras sociais, apesar de todo o hibridismo reinante na cultura de massa, continuariam se perpetuando simbolicamente através da música.
Por: Tania da Costa Garcia
fonte: http://www.faap.br/revista_faap/revista_facom/artigos_madame1.htm
20 Julho, 2011
Cartéis políticos
Em março de 1891, no prefácio de nova edição da “Guerra Civil em França”, Engels faz uma análise - com distanciamento de duas décadas – da Comuna de Paris. Aproveita para classificar os políticos de Tio Sam no final do século 19. Será que aconteceu mudança substancial no decorrer desses 120 anos? A descrição lembra Brasília dos últimos meses:
“Em parte alguma os «políticos» formam um destacamento da nação mais separado e mais poderoso do que precisamente na América do Norte. Ali, cada um dos dois grandes partidos aos quais cabe alternadamente a dominação é ele próprio governado por pessoas que fazem da política um negócio, que especulam com lugares nas assembleias legislativas da União e de cada um dos Estados, ou que vivem da agitação para o seu partido e são, após a vitória deste, recompensados com cargos. É sabido que os americanos procuram, desde há trinta anos, sacudir este jugo tornado insuportável e que, apesar de tudo, se atolam sempre mais fundo nesse pântano da corrupção. É precisamente na América que podemos ver melhor como se processa esta autonomização do poder de Estado face à sociedade, quando originalmente estava destinado a ser mero instrumento desta. Não existe ali uma dinastia, uma nobreza, um exército permanente — excetuados os poucos homens para a vigilância dos índios — nem burocracia com emprego fixo ou direito à reforma. E, não obstante, temos ali dois grandes bandos de especuladores políticos que, revezando-se, tomam conta do poder de Estado e o exploram com os meios mais corruptos para os fins mais corruptos — e a nação é impotente contra estes dois grandes cartéis de políticos pretensamente ao seu serviço, mas que na realidade a dominam e saqueiam.”
19 Julho, 2011
Biografia mostra o Jango que a ditadura fez sumir
Pelo que narra Amorim, o livro promete.
Por enquanto, transcrevo um trecho da entrevista de Jorge Ferreira ao caderno Ilustrada, da Folha de S. Paulo:
Qualquer personagem político pode ser chamado de populista, basta não gostar dele. Populista é sempre o outro, o adversário, aquele de quem você não gosta.
Não se trata de um conceito teórico, mas de uma desqualificação política. Eu prefiro nomear os personagens assim como eram chamados na época: Jango era trabalhista, Lacerda, udenista, e Prestes, comunista.
(…)
O governo Goulart foi o auge do projeto trabalhista, que começou com as políticas públicas dos anos 1930, em época de autoritarismo. Mas que se democratizou, se modernizou e se esquerdizou a partir da segunda metade dos anos 1950.João Goulart é, talvez, uma das figuras mais injustiçada e esquecidas da história brasileira. O trabalho de Ferreira, certamente, é uma luz que sua história e seu papel merecem receber. E quem pensa o Brasil precisa conhecer.
Seus elementos fundamentais foram o nacionalismo, o estatismo, o desenvolvimentismo, a intervenção do Estado na economia e nas relações entre patrões e assalariados, a manutenção e a ampliação dos benefícios sociais aos trabalhadores, a reforma agrária e a liderança política partidária de grande expressão. Creio que muitas dessas tradições inventadas pelos trabalhistas ainda estão presentes entre as esquerdas brasileiras.
18 Julho, 2011
Mandela e a “bronca” em Fidel Castro
Hoje é aniversário de Nelson Mandela, que completa 93 anos. Ia escrever do líder sul-africano Nelson Mandela, mas acho que chamar Mandela de líder virou pleonasmo e que ele passou a ser mais que um cidadão de um país, tornou-se uma referência para o mundo.
Pois para lembrar da data, em lugar de escrever mais sobre alguém cuja grandeza não cabe em texto algum, achei um vídeo engraçado e revelador. Em 1998, já com 80 anos, Mandela dá uma simpática “bronca” em Fidel Castro, então com 72 anos, cobrando uma viagem do cubano a seu país. Fidel, que costuma ser um personagem que domina qualquer ambiente, gagueja diante daquela figura que nem o deixa falar. O que, com Fidel, reconheçamos, é uma proeza. E ouve, completamente sem jeito, a “bronca” cheia de agradecimentos ao apoio de Cuba à reconstrução da África negra.
Um momento gentil de um gigante fazendo outro gigante se encolher. E que torna os dois maiores ainda.
06 Julho, 2011
01 Julho, 2011
Financiamento
Estou pensando seriamente em fazer as minhas compras mensais no carrefour.
Será que o BNDES financia?
Será que o BNDES financia?
30 Junho, 2011
Fusão
Falando de economia, pode ocorrer uma fusão entre o Pão de Açúcar e o Carrefour, imagina o nome do novo supermercado: “Pão Francês”! Hahaha! Ou “Carrefurto”!!!
28 Junho, 2011
A Incompreensão Requentada
Novo filme do diretor Michael Haneke marca por sua exuberante fotografia em preto e branco, mas argumento sobre questão histórica é ulrapassado
Por Bruno Leal
O novo filme do diretor austríaco Michael Haneke foi uma das sessões mais disputadas da última edição do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. E o lugar na platéia justifica-se, a começar pela ousadia do projeto: “Das weiβe Band” (“A Fita Branca”) tenta explicar a origem histórica do nazismo e do holocausto. Para isso, Haneke volta a um discreto vilarejo na Alemanha às vésperas da Primeira Guerra Mundial, cuja paz rotineira é perturbada por uma série de crimes misteriosos. A cena de abertura coincide com o primeiro desses crimes. O médico do vilarejo está voltando para casa, montado em seu cavalo, quando um arame esticado entre duas cercas o derruba. Semanas depois, acontecem novos crimes: um celeiro inteiro é incendiado e o filho do barão local é seqüestrado e torturado. Em pouco tempo, o medo a desconfiança se apoderam do lugar.
O que Haneke oferece ao espectador é uma verdadeira anatomia moral e psicológica dos moradores do vilarejo alemão. Em "A Fita Branca", o diretor consegue um efeito parecido com outro filme seu, "Caché" (2005): enquanto o público se preocupa em desvendar os crimes, o filme passa por um deslocamento, indo do espaço público para o espaço privado, sempre com muita sensibilidade. Dentro das quatro paredes de diferentes famílias, tomamos conhecimento de uma estrutura patriarcal altamente autoritária, marcada pelo signo da punição e da disciplina. Em uma cena, por exemplo, vamos um pai bolinar a própria filha durante a madrugada. Enquanto isso, outro pai, o pastor da cidade, amarra as mãos do filho adolescente na cama para impedir que ele se masturbe (um pecado mortal). Por isso, não surpreende que o professor do vilarejo chegue à bizarra conclusão de que são aquelas crianças, em sua maioria submetida a uma educação fortemente repressora, as responsáveis pelos misteriosos crimes.
A tese de Haneke é que esta estrutura autoritária da sociedade alemã, sobretudo a patriarcal, gerou fortes sentimentos de indiferença, crueldade e desprezo entre a geração de jovens do início do século XX, a mesma geração que anos mais tarde abraçaria a causa do nazismo, tendo em Hitler muito mais do que um governante, mas um verdadeiro pai (sabemos, por exemplo, que o próprio Hitler tivera vários problemas com o seu pai durante a infância e adolescência). Logo no início do filme, o próprio narrador em off avisa: “os eventos que se passaram ali, naquele vilarejo, no início do século, são de extrema importância para se compreender os eventos dramáticos que aconteceriam na Alemanha, décadas depois”.
Essas relações de cunho causal aparecem em diversas marcas simbólicas ao longo do filme. A mais evidente é a tal fita branca do título, que o pastor força seus filhos a usarem. As crianças deveriam usar a fita para que pudessem sempre lembrar a sua condição de pecadores, uma antevisão da estrela de David usada pelos judeus durante parte do Terceiro Reich como elemento de uma estratégia de distinção social. Outra marca que merece destaque é o desprezo com que uma criança com deficiência mental (filho do médico) é tratada pelas demais crianças e adultos do vilarejo, ao ponto de ter seus olhos furados pelos autores dos demais crimes. O uso deste acontecimento, no filme, não tem nada de fortuito. Sabe-se que a Alemanha assassinou milhões de alemães deficientes mentais, sob a defesa de extirpar os “incapazes socialmente”. Esses crimes são considerados por diversos historiadores, inclusive, como um preâmbulo macabro para o que aconteceria com os judeus pouco tempo depois. Por fim, o mesmo tipo de alusão pode ser percebida quando um pai grita e espanca violentamente o filho (uma das cenas mais fortes do filme) ao saber que ele havia roubado a flauta do filho do barão. É praticamente impossível não reconhecer naquela cena o mesmo ímpeto de violência praticado pelos SS em campos de concentração.
Tudo isso é contado através da incrível técnica narrativa de Michael Haneke. A qualidade técnica é inegável. O filme é todo filmado em preto e branco impecável. O uso das câmeras é fascinante, não somente por conta da função do close-up para registrar as nuances dos personagens, mas também para seguir o ator em sua movimentação pelo cenário. Durante as filmagens à noite, o uso das penumbras e do som estalado provoca arrepios. Em nenhum momento, há falas exageradas nas bocas dos personagens. Não soubéssemos da magia do cinema, poderíamos dizer que as filmagens ocorreram sem que os filmados soubessem de absolutamente nada, tamanha é a naturalidade das atuações. Um filme tecnicamente impecável, um exemplo de como as imagens podem nos transportar para um universo totalmente diferente.
No entanto, apesar de todas as qualidades descritas anteriormente, o filme é uma tremenda tragédia. E o que explica esta tragédia é o argumento do filme de Haneke. Ao explicar o nazismo e o holocausto pela via do germanismo, em particular por sua estrutura patriarcal castradora, “A Fita Branca” é um enorme passo atrás na compreensão desses fenômenos.
Primeiramente, é preciso dizer que esta tese não é nova. O que Haneke faz é endossar uma idéia do intelectual alemão Theodor Adorno, o mesmo autor dos principais estudos sociológicos da “Indústria Cultural” (“A Personalidade Autoritária”, 1950). Baseado em pesquisas feitas com norte-americanos que viviam, em sua maioria, na costa leste dos Estados Unidos na década de 1950, Adorno e sua equipe estavam certos que havia uma relação íntima entre opiniões antissemitas pronunciadas, um etnocentrismo acentuado e opiniões de direita no plano político, com o fascismo potencial e com características autoritárias. Segundo o alemão, relações de severidade excessiva de um dos pais, em geral o pai, em relação ao filho (algo para Adorno muito típico entre as famílias alemães do início do século XX), fortalece uma série de sentimentos ambivalentes, como aqueles que variam do temor do castigo a transformação da hostilidade reprimida em sadismo em relação às pessoas que a vítima considera como o “outro grupo”. Um caso de transferência de repressão, uma relação de amor e ódio em relação ao pai autoritário (no filme de Haneke, essa transferência fica clara quando as crianças passam a violentar outras crianças, diferentes delas). No caso da Alemanha, esse ódio, nos anos trinta e quarenta, foi transferido para a imagem do judeu, convertido em corpo estranho dentro da sociedade ariana germânica.
A explicação de Adorno para o nazismo e para o holocausto, requentada mais de cinqüenta anos depois por Haneke, é extremamente problemática. Em primeiro lugar, a tese é frágil porque tenta levar para o plano coletivo (das massas) conceitos e justificativas que são usados pela psicologia e, sobretudo, pela psicanálise, no âmbito individual. Ao fazer isso, ela não só trata erroneamente a massa como um indivíduo unificado (psicologização excessiva da história), mas também ignora fatos políticos e econômicos do período histórico do qual se refere. Em segundo lugar, olhar para o passado alemão buscando uma origem retroativa do nazismo é extremamente conveniente. O problema está sempre lá, visível, encubado, pronto para se transformar naquilo que já conhecemos de antemão. Mas isso é apenas um mascaramento do universo marco. Segundo uma série de historiadores, dentre os quais se destaca o francês Michael R. Marrus, a Alemanha estava longe de ser o país mais antissemita da Europa na primeira metade do século XX. Se naquela época pudéssemos apostar em um país onde o holocausto iria acontecer, certamente França e Rússia seriam os mais cotados, tamanho era o grau de preconceito e perseguição sofriada pelos judeus (os famosos pogroms). Em terceiro lugar, do ponto de vista da pesquisa histórica, a história do autoritarismo alemão, do qual a estrutura familiar é o maior exemplo, é uma aposta no escuro. Como é possível explicar a morte de seis milhões de pessoas tendo em vista a justificativa de transferência psicológica? E mais: o que leva a crer (e como medir) que na Alemanha o autoritarismo patriarcal era mais intenso do que em outros países europeus? Não existe nenhuma evidência particular e incontestável que ligue uma coisa a outra. Muito mais correto, pelo contrário, parece ser compreender o antissemitismo como um sentimento existente em vários graus. Até mesmo para o Terceiro Reich, o assassinato em massa nem sempre foi algo planejado, mas ditado por uma série de circunstâncias históricas, ocorridas a partir, principalmente, de 1941.
A tese de Adorno, defendida de forma apaixonante por Haneke, foi duramente criticada e derrubada por dois trabalhos brilhantes no século XX. O primeiro desses trabalhos foi publicado em 1961, pelo maior especialista do holocausto: Raul Hilberg, com a sua obra monumental “The Destruction of the European Jews”. Hilberg chamava a atenção para o caráter industrial do Holocausto, para a natureza fria e burocrática dos crimes cometidos nos campos de concentração, tratados como um negócio qualquer do Estado, que pela primeira vez aplicava todo o conhecimento e técnicas industriais na destruição de todo um grupo social. Ou seja, não é o elemento germânico que está em jogo, mas sim a noção de mundo industrial.
O segundo grande trabalho ao qual me refiro, intitula-se “Modernidade e Holocausto”, escrito pelo cultuado sociólogo Zygmunt Bauman. O livro foi publicado em 1989 e não fortuitamente conquistou os méis importantes prêmios literários do mundo naquele ano. O livro de Bauman é uma espécie de revitalização das idéias de Hilberg, hoje aceita por praticamente todos os historiadores e sociólogos que se dedicam ao estudo do nazismo. Bauman rejeita todas as teses que germanizam e particularizam o Holocausto. Em suas palavras, “o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura”.
Nesse sentido, tratar do holocausto como uma questão de patologia psicológica e marcadamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é o símbolo do fracasso da modernidade. O holocausto é uma questão planetária e germanizá-lo pode ser uma cegueira perigosa. Bauman conclui acertadamente que os defensores da germanização do holocausto acreditam que uma vez estabelecida a responsabilidade moral e material da Alemanha, dos alemães e dos nazistas, a procura das causas está concluída. Em outras palavras, suas causas foram confinadas num espaço e num tempo limitados, para nossa sorte, o passado. Não raro, o nazismo foi durante um bom tempo classificado como uma “doença alemã”, um “desvio da civilização”, um “momento de cegueira”, quando, na verdade, trata-se de uma questão ligada a gênese do mundo moderno. O holocausto aconteceu na Alemanha dos anos quarenta, mas poderia ocorrer na França dos anos trinta. Poderia acontecer hoje, muito mais próximos do que podemos supor. E é isso o que apavora: não vivemos um mundo diferente daquele que produziu o holocausto. Para Bauman, a tese de Haneke não resulta apenas no conforto moral da auto-absolvição, mas também em um tempo de desarmamento moral e político. “Tudo aconteceu ‘lá’ – em outra época, em outro país Quanto mais culpáveis forem ‘eles’, mais seguros estaremos ‘nós’, e menos teremos que fazer para defender essa segurança. Uma vez que a atribuição de culpa for considerada equivalente à identificação das causas, a inocência e sanidade do modo de vida que tanto nos orgulhamos não precisam ser colocadas em dúvidas”.
Quem deseja conhecer este confronto de idéias, “Modernidade e Holocausto” trata-se de uma obra bastante minuciosa. Desmonta os mitos do filme de Haneke um a um. Sua abordagem identifica todos os pontos modernos e burocráticos da indústria da morte nazista, relacionando-os ao modos operandi da modernidade. Méritos para Bauman, que em um certo momento de sua argumentação, expõe como as duas coisas estão totalmente imbricadas: do gás usados nas câmaras da morte aos caminhos das linhas férreas que levavam os condenados para os campos. Elementos consagrados da indústria metalurgia e química do século XX. E tudo isso planejado de acordo com os preceitos básicos e modernos, típicos dos manuais consagrados de administração, até hoje usados.
Assim, se “A Fita Branca” pode ser primoroso do ponto de vista técnico-cinematográfico, do ponto de vista do argumento do roteiro, cuja vida é dada pela direção persuasiva e brilhante de Haneke, trata-se de uma tragédia completa. Para o diretor austríaco (vale lembrar que a Áustria recebeu com flores a anexação na Alemanha de Hitler) o nazismo é representado como um “problema de alemães”. E se a opinião pública compra essa idéia, ainda bem arraigada na mente de certos produtores de sentido sobre o passado, seria a comprovação de que não aprendemos ainda a maior lição deixada pelo holocausto.
http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca
Por Bruno Leal
O novo filme do diretor austríaco Michael Haneke foi uma das sessões mais disputadas da última edição do Festival de Cinema do Rio de Janeiro. E o lugar na platéia justifica-se, a começar pela ousadia do projeto: “Das weiβe Band” (“A Fita Branca”) tenta explicar a origem histórica do nazismo e do holocausto. Para isso, Haneke volta a um discreto vilarejo na Alemanha às vésperas da Primeira Guerra Mundial, cuja paz rotineira é perturbada por uma série de crimes misteriosos. A cena de abertura coincide com o primeiro desses crimes. O médico do vilarejo está voltando para casa, montado em seu cavalo, quando um arame esticado entre duas cercas o derruba. Semanas depois, acontecem novos crimes: um celeiro inteiro é incendiado e o filho do barão local é seqüestrado e torturado. Em pouco tempo, o medo a desconfiança se apoderam do lugar.
O que Haneke oferece ao espectador é uma verdadeira anatomia moral e psicológica dos moradores do vilarejo alemão. Em "A Fita Branca", o diretor consegue um efeito parecido com outro filme seu, "Caché" (2005): enquanto o público se preocupa em desvendar os crimes, o filme passa por um deslocamento, indo do espaço público para o espaço privado, sempre com muita sensibilidade. Dentro das quatro paredes de diferentes famílias, tomamos conhecimento de uma estrutura patriarcal altamente autoritária, marcada pelo signo da punição e da disciplina. Em uma cena, por exemplo, vamos um pai bolinar a própria filha durante a madrugada. Enquanto isso, outro pai, o pastor da cidade, amarra as mãos do filho adolescente na cama para impedir que ele se masturbe (um pecado mortal). Por isso, não surpreende que o professor do vilarejo chegue à bizarra conclusão de que são aquelas crianças, em sua maioria submetida a uma educação fortemente repressora, as responsáveis pelos misteriosos crimes.
A tese de Haneke é que esta estrutura autoritária da sociedade alemã, sobretudo a patriarcal, gerou fortes sentimentos de indiferença, crueldade e desprezo entre a geração de jovens do início do século XX, a mesma geração que anos mais tarde abraçaria a causa do nazismo, tendo em Hitler muito mais do que um governante, mas um verdadeiro pai (sabemos, por exemplo, que o próprio Hitler tivera vários problemas com o seu pai durante a infância e adolescência). Logo no início do filme, o próprio narrador em off avisa: “os eventos que se passaram ali, naquele vilarejo, no início do século, são de extrema importância para se compreender os eventos dramáticos que aconteceriam na Alemanha, décadas depois”.
Essas relações de cunho causal aparecem em diversas marcas simbólicas ao longo do filme. A mais evidente é a tal fita branca do título, que o pastor força seus filhos a usarem. As crianças deveriam usar a fita para que pudessem sempre lembrar a sua condição de pecadores, uma antevisão da estrela de David usada pelos judeus durante parte do Terceiro Reich como elemento de uma estratégia de distinção social. Outra marca que merece destaque é o desprezo com que uma criança com deficiência mental (filho do médico) é tratada pelas demais crianças e adultos do vilarejo, ao ponto de ter seus olhos furados pelos autores dos demais crimes. O uso deste acontecimento, no filme, não tem nada de fortuito. Sabe-se que a Alemanha assassinou milhões de alemães deficientes mentais, sob a defesa de extirpar os “incapazes socialmente”. Esses crimes são considerados por diversos historiadores, inclusive, como um preâmbulo macabro para o que aconteceria com os judeus pouco tempo depois. Por fim, o mesmo tipo de alusão pode ser percebida quando um pai grita e espanca violentamente o filho (uma das cenas mais fortes do filme) ao saber que ele havia roubado a flauta do filho do barão. É praticamente impossível não reconhecer naquela cena o mesmo ímpeto de violência praticado pelos SS em campos de concentração.
Tudo isso é contado através da incrível técnica narrativa de Michael Haneke. A qualidade técnica é inegável. O filme é todo filmado em preto e branco impecável. O uso das câmeras é fascinante, não somente por conta da função do close-up para registrar as nuances dos personagens, mas também para seguir o ator em sua movimentação pelo cenário. Durante as filmagens à noite, o uso das penumbras e do som estalado provoca arrepios. Em nenhum momento, há falas exageradas nas bocas dos personagens. Não soubéssemos da magia do cinema, poderíamos dizer que as filmagens ocorreram sem que os filmados soubessem de absolutamente nada, tamanha é a naturalidade das atuações. Um filme tecnicamente impecável, um exemplo de como as imagens podem nos transportar para um universo totalmente diferente.
No entanto, apesar de todas as qualidades descritas anteriormente, o filme é uma tremenda tragédia. E o que explica esta tragédia é o argumento do filme de Haneke. Ao explicar o nazismo e o holocausto pela via do germanismo, em particular por sua estrutura patriarcal castradora, “A Fita Branca” é um enorme passo atrás na compreensão desses fenômenos.
Primeiramente, é preciso dizer que esta tese não é nova. O que Haneke faz é endossar uma idéia do intelectual alemão Theodor Adorno, o mesmo autor dos principais estudos sociológicos da “Indústria Cultural” (“A Personalidade Autoritária”, 1950). Baseado em pesquisas feitas com norte-americanos que viviam, em sua maioria, na costa leste dos Estados Unidos na década de 1950, Adorno e sua equipe estavam certos que havia uma relação íntima entre opiniões antissemitas pronunciadas, um etnocentrismo acentuado e opiniões de direita no plano político, com o fascismo potencial e com características autoritárias. Segundo o alemão, relações de severidade excessiva de um dos pais, em geral o pai, em relação ao filho (algo para Adorno muito típico entre as famílias alemães do início do século XX), fortalece uma série de sentimentos ambivalentes, como aqueles que variam do temor do castigo a transformação da hostilidade reprimida em sadismo em relação às pessoas que a vítima considera como o “outro grupo”. Um caso de transferência de repressão, uma relação de amor e ódio em relação ao pai autoritário (no filme de Haneke, essa transferência fica clara quando as crianças passam a violentar outras crianças, diferentes delas). No caso da Alemanha, esse ódio, nos anos trinta e quarenta, foi transferido para a imagem do judeu, convertido em corpo estranho dentro da sociedade ariana germânica.
A explicação de Adorno para o nazismo e para o holocausto, requentada mais de cinqüenta anos depois por Haneke, é extremamente problemática. Em primeiro lugar, a tese é frágil porque tenta levar para o plano coletivo (das massas) conceitos e justificativas que são usados pela psicologia e, sobretudo, pela psicanálise, no âmbito individual. Ao fazer isso, ela não só trata erroneamente a massa como um indivíduo unificado (psicologização excessiva da história), mas também ignora fatos políticos e econômicos do período histórico do qual se refere. Em segundo lugar, olhar para o passado alemão buscando uma origem retroativa do nazismo é extremamente conveniente. O problema está sempre lá, visível, encubado, pronto para se transformar naquilo que já conhecemos de antemão. Mas isso é apenas um mascaramento do universo marco. Segundo uma série de historiadores, dentre os quais se destaca o francês Michael R. Marrus, a Alemanha estava longe de ser o país mais antissemita da Europa na primeira metade do século XX. Se naquela época pudéssemos apostar em um país onde o holocausto iria acontecer, certamente França e Rússia seriam os mais cotados, tamanho era o grau de preconceito e perseguição sofriada pelos judeus (os famosos pogroms). Em terceiro lugar, do ponto de vista da pesquisa histórica, a história do autoritarismo alemão, do qual a estrutura familiar é o maior exemplo, é uma aposta no escuro. Como é possível explicar a morte de seis milhões de pessoas tendo em vista a justificativa de transferência psicológica? E mais: o que leva a crer (e como medir) que na Alemanha o autoritarismo patriarcal era mais intenso do que em outros países europeus? Não existe nenhuma evidência particular e incontestável que ligue uma coisa a outra. Muito mais correto, pelo contrário, parece ser compreender o antissemitismo como um sentimento existente em vários graus. Até mesmo para o Terceiro Reich, o assassinato em massa nem sempre foi algo planejado, mas ditado por uma série de circunstâncias históricas, ocorridas a partir, principalmente, de 1941.
A tese de Adorno, defendida de forma apaixonante por Haneke, foi duramente criticada e derrubada por dois trabalhos brilhantes no século XX. O primeiro desses trabalhos foi publicado em 1961, pelo maior especialista do holocausto: Raul Hilberg, com a sua obra monumental “The Destruction of the European Jews”. Hilberg chamava a atenção para o caráter industrial do Holocausto, para a natureza fria e burocrática dos crimes cometidos nos campos de concentração, tratados como um negócio qualquer do Estado, que pela primeira vez aplicava todo o conhecimento e técnicas industriais na destruição de todo um grupo social. Ou seja, não é o elemento germânico que está em jogo, mas sim a noção de mundo industrial.
O segundo grande trabalho ao qual me refiro, intitula-se “Modernidade e Holocausto”, escrito pelo cultuado sociólogo Zygmunt Bauman. O livro foi publicado em 1989 e não fortuitamente conquistou os méis importantes prêmios literários do mundo naquele ano. O livro de Bauman é uma espécie de revitalização das idéias de Hilberg, hoje aceita por praticamente todos os historiadores e sociólogos que se dedicam ao estudo do nazismo. Bauman rejeita todas as teses que germanizam e particularizam o Holocausto. Em suas palavras, “o Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano, e por essa razão é um problema dessa sociedade, dessa civilização e cultura”.
Nesse sentido, tratar do holocausto como uma questão de patologia psicológica e marcadamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é o símbolo do fracasso da modernidade. O holocausto é uma questão planetária e germanizá-lo pode ser uma cegueira perigosa. Bauman conclui acertadamente que os defensores da germanização do holocausto acreditam que uma vez estabelecida a responsabilidade moral e material da Alemanha, dos alemães e dos nazistas, a procura das causas está concluída. Em outras palavras, suas causas foram confinadas num espaço e num tempo limitados, para nossa sorte, o passado. Não raro, o nazismo foi durante um bom tempo classificado como uma “doença alemã”, um “desvio da civilização”, um “momento de cegueira”, quando, na verdade, trata-se de uma questão ligada a gênese do mundo moderno. O holocausto aconteceu na Alemanha dos anos quarenta, mas poderia ocorrer na França dos anos trinta. Poderia acontecer hoje, muito mais próximos do que podemos supor. E é isso o que apavora: não vivemos um mundo diferente daquele que produziu o holocausto. Para Bauman, a tese de Haneke não resulta apenas no conforto moral da auto-absolvição, mas também em um tempo de desarmamento moral e político. “Tudo aconteceu ‘lá’ – em outra época, em outro país Quanto mais culpáveis forem ‘eles’, mais seguros estaremos ‘nós’, e menos teremos que fazer para defender essa segurança. Uma vez que a atribuição de culpa for considerada equivalente à identificação das causas, a inocência e sanidade do modo de vida que tanto nos orgulhamos não precisam ser colocadas em dúvidas”.
Quem deseja conhecer este confronto de idéias, “Modernidade e Holocausto” trata-se de uma obra bastante minuciosa. Desmonta os mitos do filme de Haneke um a um. Sua abordagem identifica todos os pontos modernos e burocráticos da indústria da morte nazista, relacionando-os ao modos operandi da modernidade. Méritos para Bauman, que em um certo momento de sua argumentação, expõe como as duas coisas estão totalmente imbricadas: do gás usados nas câmaras da morte aos caminhos das linhas férreas que levavam os condenados para os campos. Elementos consagrados da indústria metalurgia e química do século XX. E tudo isso planejado de acordo com os preceitos básicos e modernos, típicos dos manuais consagrados de administração, até hoje usados.
Assim, se “A Fita Branca” pode ser primoroso do ponto de vista técnico-cinematográfico, do ponto de vista do argumento do roteiro, cuja vida é dada pela direção persuasiva e brilhante de Haneke, trata-se de uma tragédia completa. Para o diretor austríaco (vale lembrar que a Áustria recebeu com flores a anexação na Alemanha de Hitler) o nazismo é representado como um “problema de alemães”. E se a opinião pública compra essa idéia, ainda bem arraigada na mente de certos produtores de sentido sobre o passado, seria a comprovação de que não aprendemos ainda a maior lição deixada pelo holocausto.
http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/critica-do-filme-a-fita-branca
22 Junho, 2011
O corpo é uma festa
La iglesia dice: El cuerpo es una culpa.
La ciencia dice: El cuerpo es una máquina.
La publicidad dice: El cuerpo es un negocio.
El cuerpo dice: Yo soy una fiesta.
Eduardo Galeano
foto: The body, de Fallon Zophy
21 Junho, 2011
O perigo da história única
Incrível - e assustador - quando percebemos que o nosso etnocentrismo nos torna seres humanos piores, mais limitados e preconceituosos...
As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural - e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico.
Vale a pena assistir e refletir sobre o perigo de "uma única história"...
Veja abaixo o vídeo dividido em duas partes:
As nossas vidas, as nossas culturas, são compostas por muitas histórias sobrepostas. A romancista Chimamanda Adichie conta a história de como descobriu a sua voz cultural - e adverte que se ouvirmos apenas uma história sobre outra pessoa ou país, arriscamos um desentendimento crítico.
Vale a pena assistir e refletir sobre o perigo de "uma única história"...
Veja abaixo o vídeo dividido em duas partes:
19 Junho, 2011
Tentações
Hoje, domingão, pouco depois das 10 hs, na Barra Funda, esperando o portão da Uninove abrir para prestar um concurso, lá estava eu a flanar e a observar as figuras interessantes que perambulam por essas bandas da cidade, quando uma mocinha - até bastante bonitinha - com aquele jeitão de evangélica e com uma pilha de folhetos religiosos nas mãos se aproxima de mim e, de forma bastante educada, me aborda:
- Bom dia. Posso lhe entregar uma mensagem da nossa Igreja?
- Pois não, respondi eu.
- Ela traz uma reflexão sobre um tema muito importante: a virgindade e o sexo antes do casamento. Qual é a sua opinião sobre isto?
- Sobre o quê?
- Sobre sexo antes do casamento
Juro que tentei não ceder à tentação, mas o demoninho tentador foi mais forte do que eu! Não resisti e mandei aquela velha resposta:
- Nada contra, desde que não atrase a cerimônia!
Ela ficou tão vermelha, mas tão vermelha, que não pude deixar de me sentir o mais torpe dos indivíduos. Falei então:
- Liga não, menina. Foi o demônio quem me tentou e me fez soltar esta piada infame!
Ela arregalou os olhos, balbuciou algo, disse bom dia e foi abordar outra pessoa que passava por ali.
E assim, como tem sido desde a alta idade média, o demônio continuou a cumprir sua mais importante função social: a de fornecer a nosotros, pobres e falíveis mortais, as desculpas que justificam as cagadas que fazemos!
- Bom dia. Posso lhe entregar uma mensagem da nossa Igreja?
- Pois não, respondi eu.
- Ela traz uma reflexão sobre um tema muito importante: a virgindade e o sexo antes do casamento. Qual é a sua opinião sobre isto?
- Sobre o quê?
- Sobre sexo antes do casamento
Juro que tentei não ceder à tentação, mas o demoninho tentador foi mais forte do que eu! Não resisti e mandei aquela velha resposta:
- Nada contra, desde que não atrase a cerimônia!
Ela ficou tão vermelha, mas tão vermelha, que não pude deixar de me sentir o mais torpe dos indivíduos. Falei então:
- Liga não, menina. Foi o demônio quem me tentou e me fez soltar esta piada infame!
Ela arregalou os olhos, balbuciou algo, disse bom dia e foi abordar outra pessoa que passava por ali.
E assim, como tem sido desde a alta idade média, o demônio continuou a cumprir sua mais importante função social: a de fornecer a nosotros, pobres e falíveis mortais, as desculpas que justificam as cagadas que fazemos!
17 Junho, 2011
Está difícil de entender
É difícil compreender o caso, sabendo-se que a presidenta sofreu os piores tratamentos que um ser humano pode ser submetido pelo regime que sequestrou, prendeu, torturou, e assassinou. Agora, caso se confirme, a cidadania estará impedida de conhecer o passado de si própria, em nome, em nome... em nome do quê mesmo?
16 Junho, 2011
STF libera a marcha da maconha!
E o último comentário do Ministro Marco Aurélio Mello, ao terminar seu voto, foi bem a propósito: " o voto do relator foi muito bem BASEADO."
08 Junho, 2011
Édipo, Hamlet & Outras Conspirações
Édipo manda Creonte buscar Tirésias, em Delfos, para conseguir encontrar os assassinos de Laio e salvar Tebas da praga. O profeta, depois de hesitar um pouco, diz que o culpado é o próprio Édipo. Imediatamente, o rei acusa Creonte de ter comprado o testemunho de Tirésias e, assim, tomar o poder. Mais tarde, as declarações de um camponês e de um escravo terminam convencendo Édipo de sua culpa e ele arranca os próprios olhos. Creonte torna-se rei.
Mas talvez a acusação de Édipo não fosse assim tão infundada. Nada impede Creonte de ter comprado os testemunhos não só de Tirésias, mas também do camponês e do escravo - teoricamente, mais fáceis de corromper do que um profeta.
Quem sabe Édipo era inocente e foi tudo uma grande conspiração.
::::
Quando você aprende a desconfiar dos textos, não pára mais.
05 Junho, 2011
Histórias de alguém que cruza o Atlântico todos os dias para aguar seus mortos e entender quem é
Hoje, pela manhã, a jornalista Cynara Menezes fez referência a este texto do Newton Moreno e, agora, no início da noite, @Be_neviani me encaminha.
Agradeço o presente com o perfume da prosa poética de Mia Couto, com um misto da sensibilidade dolorida dos romances de Paulina Chiziane ao falar das mulheres africanas de sua também terra natal: Moçambique.
Pensei também que temos autores com essa lavra de Moreno e temos Mervais eleitos para a ABL…
História que alguém me contou
Por: Newton Moreno, Ilustríssima
UMA NEGRA BÊBADA tropeçou para dentro do metrô. Testou seus superpoderes, tentando se equilibrar com o vagão em movimento. Parecia surfar no ar já contaminado de seu bafo. Desafiava-nos com sua ousadia alcoólatra.
Todos. Tenho certeza de que todos torciam por sua queda. Ela resistia e ria, zombando de nossas caras. Parecia-nos impossível para uma mulher tão alcoolizada manter-se de pé. Era uma questão de honra: tinha que cair. Iniciamos uma vibração silenciosa. Gargalhava. Uma voz antipática e sonolenta anunciou a próxima estação.
A negra vitoriosa sentou-se. Conseguiu completar o percurso de uma estação a outra sem ameaçar uma queda. Esnobou. Nem nos olhou na cara. Mas começou a falar. Alto. Amplificada. Não abria os olhos e soava por todo o vagão. Decidiu nos comunicar tudo que pensava do mundo. Suas opiniões, estado d’alma, mal-estar físico, seu iminente vômito, os litros de cerveja, as marcas de cerveja, os rótulos das cervejas. A negra tagarelava e se calou apenas quando vomitou. Estabeleceu assim uma trincheira. Migramos todos para o outro canto do vagão, deixando-a só.
Uma poça fétida. Um minuto sem a sua voz. O que parecia uma dádiva. Hospedou-se, por fim, na última cadeira. Tudo levava a crer que iria dormir. Braços cruzados, pernas esticadas, olhos fechados, cabeça inclinada. Aguardávamos o ronco. Esticávamos mesmo o ouvido para checar se dormia ou não. Uma velhinha deu dois passos para ver de perto, tapando o nariz.
“Eu não dormi.” Renasceu sonora e expulsou a velhinha de volta a sua cadeira. “Sabia que minha mãe era negra, e mãe dela, e a mãe da mãe dela?” Só então percebi suas tranças afro. Pareceu-me bonita. Duas oitavas abaixo, cantou alguma coisa em iorubá. Disse que não sabia a tradução. Disse que sua alma se perdia nas notas da canção. Como um disco em rotação alterada, iniciou uma narrativa.
Tínhamos a impressão de que não conseguiria completar a frase seguinte. Mas partiu confiante e mágica, como os bons contadores de histórias.
Era uma vez a África.
Negros que corriam protegidos pelo sol. Amavam-se como negros e uns aos outros. Numa cidade do Atlântico, seus antepassados se casaram. Homem e mulher de grande beleza. Bentos pelos orixás, tementes a cada movimento da natureza. Da folha frágil que voava ao solo ao mais furioso trovão.
Foram colhidos na noite de suas alegrias pelos homens sem cor. Isentos de sol. Os que descobriram que negro vale dinheiro. Ceifaram metade da aldeia. A mulher, negra parideira, queriam levá-la. Acorrentaram-na à noite. Na madrugada, transportariam fêmeas que gestariam dividendos para seu capital. Astuto, o homem invadiu o cativeiro. Libertou-a, mandando-a para a floresta. Vestiu seus panos. Envolveu-se no disfarce. Foi em seu lugar.
Sua mãe amarrou-a à África numa árvore espessa. Cimentou-lhe os pés com cordas.
Impediu que se atirasse no barco para ir junto. Ele viajou envolto em seu cheiro.
Negros e negros eram semeados ao mar. Doentes, fétidos, raquíticos, loucos. Alguns choravam tanto que eles os jogavam às águas. Não aguentavam a insânia de suas dores. Mulheres deram cria no meio do esterco e dos cadáveres. Ele não largou seus panos.
Desceu neste país e guardou sua alegria para o dia em que conseguisse voltar. Não sorriu desde então. Esperou pela alforria. Sobreviveu a anos sob um outro sol e chibata. Sem sorrir.
Liberto pela nova lei, queria voltar. Ofereceu seus préstimos para trabalhar num navio. Limparia, lavaria, cozinharia, remaria. De pouco valem os braços de um velho cansado.
Navios e navios partiam, e nenhum o aceitava. Clandestino, atirou-se a uma embarcação.
Ocultou-se no porão, comendo restos de lixo, enfrentou o Atlântico para poder voltar a sorrir. Seus dentes nem estavam mais lá. Mas ele sorria ao sentir na brisa um cheiro de África. O canto dos pássaros, o céu, a cor da água, o sol. Quando, ao longe, já se via terra, atirou-se ao mar. Tinha pressa. Desembarcou junto com o dia na praia. Andou o litoral até chegar a sua aldeia. Estava mudada, mais vazia, alguns pescadores, alguns homens sem cor. Nenhum conhecido a princípio.
A saudade baixou como um raio de tempestade: poderia tirar a vida de um incauto. Perguntou por sua mulher, por sua família, por seus amigos. Muitos foram levados para o outro lado do oceano. Mas a mãe sobrevivera. Encravada numa cama no núcleo da África. Num berço da selva, ungida pelos orixás, cantava seus filhos perdidos e pedia para não sofrer mais. Estava fraca do coração. Ele não sabia o que fazer. E se ela morresse ao vê-lo? Mas foi ela quem veio até ele. Pressentiu sua chegada. Arrumou-se contra a velhice. Abraçou-o como uma raiz envolve a terra. Elogiou sua força. Ele perguntou por sua mulher. A mãe calou num suspiro, por onde vazou sua alegria.
“Ela fugiu para te encontrar. Entregou-se aos piratas. Foi na tua direção e morreu no mar. Iemanjá me confirmou. Iemanjá nanou essa filha. Desceu com ela para o fundo do mar para fazer um carinho. Conduziu com um cafuné até o outro lado.”
Foi até este ponto que ela conseguiu chegar. Agora, o ronco estrondoso enterrava-a no sono. Minha estação se anunciava na voz antipática do metrô. A negra dormia. Eu não poderia agradecê-la. Eu deveria? Por quê? A velhinha recolheu as lágrimas no rosto. O homem desapareceu para dentro do seu casaco. Eu queria acordá-la para ouvir mais ou para me redimir do meu comportamento anterior.
Mas havia algo extremamente justo naquele sono. Como um troféu. Como um repouso. Como uma vitória. De alguém que tem que cruzar um Atlântico todos os dias para aguar seus mortos e entender quem é.
Desci. Em algum lugar do outro lado do mar.
Do Blog Maria Frô
Agradeço o presente com o perfume da prosa poética de Mia Couto, com um misto da sensibilidade dolorida dos romances de Paulina Chiziane ao falar das mulheres africanas de sua também terra natal: Moçambique.
Pensei também que temos autores com essa lavra de Moreno e temos Mervais eleitos para a ABL…
História que alguém me contou
Por: Newton Moreno, Ilustríssima
UMA NEGRA BÊBADA tropeçou para dentro do metrô. Testou seus superpoderes, tentando se equilibrar com o vagão em movimento. Parecia surfar no ar já contaminado de seu bafo. Desafiava-nos com sua ousadia alcoólatra.
Todos. Tenho certeza de que todos torciam por sua queda. Ela resistia e ria, zombando de nossas caras. Parecia-nos impossível para uma mulher tão alcoolizada manter-se de pé. Era uma questão de honra: tinha que cair. Iniciamos uma vibração silenciosa. Gargalhava. Uma voz antipática e sonolenta anunciou a próxima estação.
A negra vitoriosa sentou-se. Conseguiu completar o percurso de uma estação a outra sem ameaçar uma queda. Esnobou. Nem nos olhou na cara. Mas começou a falar. Alto. Amplificada. Não abria os olhos e soava por todo o vagão. Decidiu nos comunicar tudo que pensava do mundo. Suas opiniões, estado d’alma, mal-estar físico, seu iminente vômito, os litros de cerveja, as marcas de cerveja, os rótulos das cervejas. A negra tagarelava e se calou apenas quando vomitou. Estabeleceu assim uma trincheira. Migramos todos para o outro canto do vagão, deixando-a só.
Uma poça fétida. Um minuto sem a sua voz. O que parecia uma dádiva. Hospedou-se, por fim, na última cadeira. Tudo levava a crer que iria dormir. Braços cruzados, pernas esticadas, olhos fechados, cabeça inclinada. Aguardávamos o ronco. Esticávamos mesmo o ouvido para checar se dormia ou não. Uma velhinha deu dois passos para ver de perto, tapando o nariz.
“Eu não dormi.” Renasceu sonora e expulsou a velhinha de volta a sua cadeira. “Sabia que minha mãe era negra, e mãe dela, e a mãe da mãe dela?” Só então percebi suas tranças afro. Pareceu-me bonita. Duas oitavas abaixo, cantou alguma coisa em iorubá. Disse que não sabia a tradução. Disse que sua alma se perdia nas notas da canção. Como um disco em rotação alterada, iniciou uma narrativa.
Tínhamos a impressão de que não conseguiria completar a frase seguinte. Mas partiu confiante e mágica, como os bons contadores de histórias.
Era uma vez a África.
Negros que corriam protegidos pelo sol. Amavam-se como negros e uns aos outros. Numa cidade do Atlântico, seus antepassados se casaram. Homem e mulher de grande beleza. Bentos pelos orixás, tementes a cada movimento da natureza. Da folha frágil que voava ao solo ao mais furioso trovão.
Foram colhidos na noite de suas alegrias pelos homens sem cor. Isentos de sol. Os que descobriram que negro vale dinheiro. Ceifaram metade da aldeia. A mulher, negra parideira, queriam levá-la. Acorrentaram-na à noite. Na madrugada, transportariam fêmeas que gestariam dividendos para seu capital. Astuto, o homem invadiu o cativeiro. Libertou-a, mandando-a para a floresta. Vestiu seus panos. Envolveu-se no disfarce. Foi em seu lugar.
Sua mãe amarrou-a à África numa árvore espessa. Cimentou-lhe os pés com cordas.
Impediu que se atirasse no barco para ir junto. Ele viajou envolto em seu cheiro.
Negros e negros eram semeados ao mar. Doentes, fétidos, raquíticos, loucos. Alguns choravam tanto que eles os jogavam às águas. Não aguentavam a insânia de suas dores. Mulheres deram cria no meio do esterco e dos cadáveres. Ele não largou seus panos.
Desceu neste país e guardou sua alegria para o dia em que conseguisse voltar. Não sorriu desde então. Esperou pela alforria. Sobreviveu a anos sob um outro sol e chibata. Sem sorrir.
Liberto pela nova lei, queria voltar. Ofereceu seus préstimos para trabalhar num navio. Limparia, lavaria, cozinharia, remaria. De pouco valem os braços de um velho cansado.
Navios e navios partiam, e nenhum o aceitava. Clandestino, atirou-se a uma embarcação.
Ocultou-se no porão, comendo restos de lixo, enfrentou o Atlântico para poder voltar a sorrir. Seus dentes nem estavam mais lá. Mas ele sorria ao sentir na brisa um cheiro de África. O canto dos pássaros, o céu, a cor da água, o sol. Quando, ao longe, já se via terra, atirou-se ao mar. Tinha pressa. Desembarcou junto com o dia na praia. Andou o litoral até chegar a sua aldeia. Estava mudada, mais vazia, alguns pescadores, alguns homens sem cor. Nenhum conhecido a princípio.
A saudade baixou como um raio de tempestade: poderia tirar a vida de um incauto. Perguntou por sua mulher, por sua família, por seus amigos. Muitos foram levados para o outro lado do oceano. Mas a mãe sobrevivera. Encravada numa cama no núcleo da África. Num berço da selva, ungida pelos orixás, cantava seus filhos perdidos e pedia para não sofrer mais. Estava fraca do coração. Ele não sabia o que fazer. E se ela morresse ao vê-lo? Mas foi ela quem veio até ele. Pressentiu sua chegada. Arrumou-se contra a velhice. Abraçou-o como uma raiz envolve a terra. Elogiou sua força. Ele perguntou por sua mulher. A mãe calou num suspiro, por onde vazou sua alegria.
“Ela fugiu para te encontrar. Entregou-se aos piratas. Foi na tua direção e morreu no mar. Iemanjá me confirmou. Iemanjá nanou essa filha. Desceu com ela para o fundo do mar para fazer um carinho. Conduziu com um cafuné até o outro lado.”
Foi até este ponto que ela conseguiu chegar. Agora, o ronco estrondoso enterrava-a no sono. Minha estação se anunciava na voz antipática do metrô. A negra dormia. Eu não poderia agradecê-la. Eu deveria? Por quê? A velhinha recolheu as lágrimas no rosto. O homem desapareceu para dentro do seu casaco. Eu queria acordá-la para ouvir mais ou para me redimir do meu comportamento anterior.
Mas havia algo extremamente justo naquele sono. Como um troféu. Como um repouso. Como uma vitória. De alguém que tem que cruzar um Atlântico todos os dias para aguar seus mortos e entender quem é.
Desci. Em algum lugar do outro lado do mar.
Do Blog Maria Frô
Aprenda a ver televisão
Em um belo dia de 1988, a emissora pública espanhola TVE colocou no ar uma curiosa campanha institucional chamada “Aprenda a ver televisão”. Eram dois singelos filmes de um minuto de duração cada um, exibidos em sequência. Criados pela agência Contrapunto, os comerciais acabaram faturando, naquele ano, o cobiçadíssimo Grande Prêmio da 36ª edição do Festival do Filme Publicitário de Cannes. A série conta a história da cadelinha Pipin e de seu dono, um menino viciado em televisão e entorpecido por ela.
03 Junho, 2011
ABL versus COERÊNCIA
ABL - Academia Brasileira de Letras (ou seria Academia Brasileira de Lixo?) mantém "coerência" e elege mais um iletrado: escolhe Merval Podreira para fazer companhia à Ivo Pitanguy, Lira Tavares e Sarney. Noblat e Bolsonaro disputarão próxima vaga.
02 Junho, 2011
Uma pergunta à OTAN e à ONU
Esta semana, os ataques da OTAN (Leia-se Estados Unidos e seus lacaios) causaram a morte de 12 crianças no Afeganistão. Após a constatação do erro, a OTAN pediu desculpas ao povo Afegão. E tudo bem!
Pergunta: Se o Talebã pedir desculpas pelo 11 de Setembro... Fica tudo bem e OTAN voltam para casa????
31 Maio, 2011
Arrependimento
Deu no blog do Nassif. E é tão bom que eu vou copicolar um pedacinho:
Do Valor Econômico vem a notícia de que para se livrar da fama de predadores do patrimônio público, o PSDB e o DEMO vão propor uma PEC vedando a privatização da Petrobras, CEF e BB. Tal qual o estuprador “arrependido”, mas ciente da sua natural periculosidade, propõem decepar o próprio pênis. Em se tratando do PSDB e do DEMO, é recomendável ceifar também os dedos e a língua (isto é, extinguir os dois partidos de vez). Só por precaução.
O autor dessa impagável comparação é o José Ribeiro Júnior. A integra da postagem, com a matéria do Valor, pode ser lida aqui.
Do Valor Econômico vem a notícia de que para se livrar da fama de predadores do patrimônio público, o PSDB e o DEMO vão propor uma PEC vedando a privatização da Petrobras, CEF e BB. Tal qual o estuprador “arrependido”, mas ciente da sua natural periculosidade, propõem decepar o próprio pênis. Em se tratando do PSDB e do DEMO, é recomendável ceifar também os dedos e a língua (isto é, extinguir os dois partidos de vez). Só por precaução.
O autor dessa impagável comparação é o José Ribeiro Júnior. A integra da postagem, com a matéria do Valor, pode ser lida aqui.
30 Maio, 2011
28 Maio, 2011
A onda agora é ser bem REAÇA
A moda do reaça
Por Marcelo Rubens Paiva, em seu blog
Como comentou uma leitora, Natália, no post anterior:
Cara, acho tão engraçada essa mania das pessoas de falarem com orgulho que são “politicamente incorretas” quando dizem absurdos… o sujeito vem, fala um monte de merda e diz que faz isso porque é inteligente (é um livre pensador, não segue o pensamento burro e dirigido das massas, etc) e porque não liga de ser “politicamente incorreto” porque afinal esse é o certo, a sociedade de hoje que está deturpada.
Eu tinha pensado na mesma coisa.
O governador e o secretário municipal de segurança reconheceram que tanto a PM quanto a Guarda Municipal exageraram na repressão à MARCHA DA MACONHA, que virou MARCHA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação da PM na Marcha.
Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam achando que o certo mesmo era enfiar o cacete nos manifestantes.
A onda agora é ser bem REAÇA.
Se é humorista, e uma piada ultrapassa o limite do bom gosto, diz ser adepto do ideal do politicamente incorreto.
Que babaca é fazer censura contra intolerância.
Pode zoar com judeu, gay, falar palavrão, é isso, que se foda, viva a liberdade!
Se alguém defende a Marcha da Maconha, faz apologia, é vagabundo.
Se defende a descriminalização do aborto, é contra a vida.
Se aplaude a iniciativa da aprovação da união homossexual, quer enviadar o Brasil todo, país que se orgulha de ser bem macho, bem família!
Se defende a punição de torturadores, é porque pactua com terroristas que só queriam implodir o estado de direito e instituir a ditadura do proletariado.
Deu, né?
Esta DiogoMainardização da imprensa e da pequena burguesia brasileira tem um nome na minha terra: má educação.
Esta recusa ao pensamento humanista que ressurgiu após a leva de ditaduras que caiu como um dominó a partir dos anos 80 tem outro nome: neofascismo.
É legal ser de direita?
Tá bacana desprezar os movimentos sociais, aplaudir a repressão a eles?
Eu não acho.
Apesar de considerar o termo “politicamente correto”, do começo dos anos 90, a coisa mais fora de moda que existe, diante do que vejo e leio, afirmo: eu, aleijado com tendências esquerdizantes, não era, mas agora sou TOTALMENTE politicamente correto.
Foi uma semana marcada pelo protesto da gente diferenciada e gafes nas redes sociais, que têm 600 milhões de vigilantes no Facebook e 120 milhões no Twitter. Postaram:
Rafinha Bastos, no dia das mães: “Ae órfãos! Dia triste hoje, hein?”
Danilo Gentili, sobre os “velhos” de Higienópolis que temem uma estação de metrô: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz.”
Amanda Régis, torcedora do Flamengo, time eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que têm moral, cambada de feios. Não é à toa que não gosto desse tipo de raça.”
Ed Motta, ao chegar em Curitiba: “O Sul do Brasil como é bom, tem dignidade isso aqui. Sim porque ooo povo feio o brasileiro rs. Em avião dá vontade chorar rs. Mas chega no Sul ou SP gente bonita compondo oambiance rs.”
Quando um leitor replicou que Motta não era “um arquétipo de beleza”, ele respondeu que estava “num plano superior”. “Eu tenho pena de ignorantes como vc… Brasileiros…”, escreveu. “A cultura que eu vivo é a CULTURA superior. Melhor que a maioria ya know?”
E na MTV, a Casa dos Autistas, quadro humorístico, chocou pelo mau gosto.
Todos pediram desculpas depois. Danilo, um dos maiores humoristas de stand-up que já vi, recebeu telefonema do departamento comercial da Band, pedindo para tirar o comentário. Ed Motta se revoltou contra a imprensa. Pergunta se temos o direito de reproduzir seus escritos particulares.
A internet trouxe a incrível rapidez na troca de informações e espaço para exposição de ideias. Alguns se lambuzam. Dizem que são contra as patrulhas do politicamente correto.
Mas como ficam as domésticas ofendidas, os órfãos recentes, aqueles que perderam parentes em Auschwitz, os nordestinos e os pais de autistas?
Tomara que, depois do pensamento grego, democracia, Renascença, a revolução industrial e tecnológica nos iluminem. O preconceito não é apenas sintoma de ignorância, mas lapsos de um narcisista. Ele nunca vai acabar?
Enquanto no Itaú Cultural, um símbolo de excelência em apoio às artes e alta tecnologia, em plena Avenida Paulista, uma mãe foi expulsa por amamentar o filho em público na exposição do Leonilson, artista que sofreu inúmeros preconceitos, morto vítima da Aids.
Ou melhor, viadão que morreu da peste gay, porque era promíscuo, diriam os reaças.
Os ânimos estão acirrados.
Por Marcelo Rubens Paiva, em seu blog
Como comentou uma leitora, Natália, no post anterior:
Cara, acho tão engraçada essa mania das pessoas de falarem com orgulho que são “politicamente incorretas” quando dizem absurdos… o sujeito vem, fala um monte de merda e diz que faz isso porque é inteligente (é um livre pensador, não segue o pensamento burro e dirigido das massas, etc) e porque não liga de ser “politicamente incorreto” porque afinal esse é o certo, a sociedade de hoje que está deturpada.
Eu tinha pensado na mesma coisa.
O governador e o secretário municipal de segurança reconheceram que tanto a PM quanto a Guarda Municipal exageraram na repressão à MARCHA DA MACONHA, que virou MARCHA PELA LIBERDADE DE EXPRESSÃO.
Alckmin chegou a dizer que não compactua com a ação da PM na Marcha.
Mas muitos leitores e alguns blogueiros continuam achando que o certo mesmo era enfiar o cacete nos manifestantes.
A onda agora é ser bem REAÇA.
Se é humorista, e uma piada ultrapassa o limite do bom gosto, diz ser adepto do ideal do politicamente incorreto.
Que babaca é fazer censura contra intolerância.
Pode zoar com judeu, gay, falar palavrão, é isso, que se foda, viva a liberdade!
Se alguém defende a Marcha da Maconha, faz apologia, é vagabundo.
Se defende a descriminalização do aborto, é contra a vida.
Se aplaude a iniciativa da aprovação da união homossexual, quer enviadar o Brasil todo, país que se orgulha de ser bem macho, bem família!
Se defende a punição de torturadores, é porque pactua com terroristas que só queriam implodir o estado de direito e instituir a ditadura do proletariado.
Deu, né?
Esta DiogoMainardização da imprensa e da pequena burguesia brasileira tem um nome na minha terra: má educação.
Esta recusa ao pensamento humanista que ressurgiu após a leva de ditaduras que caiu como um dominó a partir dos anos 80 tem outro nome: neofascismo.
É legal ser de direita?
Tá bacana desprezar os movimentos sociais, aplaudir a repressão a eles?
Eu não acho.
Apesar de considerar o termo “politicamente correto”, do começo dos anos 90, a coisa mais fora de moda que existe, diante do que vejo e leio, afirmo: eu, aleijado com tendências esquerdizantes, não era, mas agora sou TOTALMENTE politicamente correto.
Foi uma semana marcada pelo protesto da gente diferenciada e gafes nas redes sociais, que têm 600 milhões de vigilantes no Facebook e 120 milhões no Twitter. Postaram:
Rafinha Bastos, no dia das mães: “Ae órfãos! Dia triste hoje, hein?”
Danilo Gentili, sobre os “velhos” de Higienópolis que temem uma estação de metrô: “A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz.”
Amanda Régis, torcedora do Flamengo, time eliminado da Copa do Brasil pelo Ceará: “Esses nordestinos pardos, bugres, índios acham que têm moral, cambada de feios. Não é à toa que não gosto desse tipo de raça.”
Ed Motta, ao chegar em Curitiba: “O Sul do Brasil como é bom, tem dignidade isso aqui. Sim porque ooo povo feio o brasileiro rs. Em avião dá vontade chorar rs. Mas chega no Sul ou SP gente bonita compondo oambiance rs.”
Quando um leitor replicou que Motta não era “um arquétipo de beleza”, ele respondeu que estava “num plano superior”. “Eu tenho pena de ignorantes como vc… Brasileiros…”, escreveu. “A cultura que eu vivo é a CULTURA superior. Melhor que a maioria ya know?”
E na MTV, a Casa dos Autistas, quadro humorístico, chocou pelo mau gosto.
Todos pediram desculpas depois. Danilo, um dos maiores humoristas de stand-up que já vi, recebeu telefonema do departamento comercial da Band, pedindo para tirar o comentário. Ed Motta se revoltou contra a imprensa. Pergunta se temos o direito de reproduzir seus escritos particulares.
A internet trouxe a incrível rapidez na troca de informações e espaço para exposição de ideias. Alguns se lambuzam. Dizem que são contra as patrulhas do politicamente correto.
Mas como ficam as domésticas ofendidas, os órfãos recentes, aqueles que perderam parentes em Auschwitz, os nordestinos e os pais de autistas?
Tomara que, depois do pensamento grego, democracia, Renascença, a revolução industrial e tecnológica nos iluminem. O preconceito não é apenas sintoma de ignorância, mas lapsos de um narcisista. Ele nunca vai acabar?
Enquanto no Itaú Cultural, um símbolo de excelência em apoio às artes e alta tecnologia, em plena Avenida Paulista, uma mãe foi expulsa por amamentar o filho em público na exposição do Leonilson, artista que sofreu inúmeros preconceitos, morto vítima da Aids.
Ou melhor, viadão que morreu da peste gay, porque era promíscuo, diriam os reaças.
Os ânimos estão acirrados.
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